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domingo

Moita - Barcelona (2ª parte)


...quando vou Vadiar de Mota, nunca levo relógio,
simplesmente porque não me faz falta, ou não nos serve para nada...
habituei-me à ideia de: come-se quando se tem fome, dorme-se quando se tem sono e etc etc...

No nosso dia a dia, a coisa é diferente e temos que ter atenção às horas, aos horários disto e daquilo...
todos temos as nossas rotinas, os compromissos, etc etc,
que são muitas vezes iniciados e terminados por um horário...

Vadiar é "a despreocupação, o desgoverno, a liberdade", fruto de não haver relógios por perto,
onde os dias passam a ter 3 fases, o nascer do dia, o dia em si, e a noite.
E quando assim é! e quando se entra nesse estado de espírito!
aquela frase do "vive e deixa viver" pode ver-se  na nossa expressão ou na nossa reacção às cenas...

(a sul do Cabo Espichel)




Na "vela" o relógio é uma ferramenta, como o canivete, a lanterna e etc etc...
Mas a historia do "vive e deixa viver" continua na mesma...
Somos guiados ou governados pela nossa consciência, e é ela quem manda...
Consciente que a minha liberdade termina onde começa a dos outros,
consciente que ter atenção aos pormenores é deveras importante...
mas tudo é feito com descontracção, normalidade, recheado com uma alegria difícil de explicar.

Nunca se luta contra os ventos ou contra as ondas,
fazemos desses elementos nossos aliados,
ou então defendemos-nos sem nunca atacar... sem lamentações da sorte ou falta dela...

Se não fosse a saudade ou necessidade de estar junto "dos meus",
podia viver assim o resto da minha vida... ai se não podia?!?!





Quando vou Vadiar de XT por caminhos longe de tudo e de todos, a saúde dela está sempre em 1º lugar, e basta dizer que para mim levo um pequeno kit de primeiros socorros que cabe numa mão, e para ela levo meia mala de coisas... porque é ela que no final vai trazer-me para casa,
e fica em stand by para a próxima Vadiagem ou para irmos trabalhar.

Numa embarcação, desengane-se quem pensa o contrario...
a embarcação é o membro mais importante da Equipa e o mais mimado.
Ela depende da nossa atenção e cuidado para se manter em bom estado,
e nós dependemos dela para regressar para junto dos nossos...

Temos que compreende-la, perceber quando ela esta lesionada,
e quando assim é, temos que trata-la imediatamente...
porque nunca confundimos o "vive e deixa viver" com o "vive e deixa andar..."





Quando cheguei ao Porto de Sines já tinha uma pequena lista de trabalhos e melhorias para sugerir.
O Jordi e o Vicente também tinham pensado em outros pormenores...

Depois de analisarmos em conjunto todas as sugestões, dividimos tarefas e criamos horários para as pôr em pratica na manhã seguinte...

- Esticar os brandais e centrar o mastro,
- Substituir o tubo de combustível do motor,
- Melhorar a escota da vela grande,
- Alterar as aderiças da vela grande,
- Rever visualmente toda a embarcação,
- Comprar comida fresca para os próximos dias,
- e ir à procura dum bom restaurante para uma boa almoçarada...
Sines - Dom Vasco da Gama




Sem pressas tudo se fez...
Sem pressas esperávamos pelo vento que prometia aparecer pelas 16 horas,
sem pressas lá estava o Tiki novamente com as velas em cima...





A noite aparece,
com a noite veio um frio esquisito,
esquisito porque os dias eram quentes e secos, e a noite tornara-se fria e molhada...

Pela primeira vez, deixo-me influenciar "pelas aparências" e durante uma meia horita "fui-me abaixo":

Fui o primeiro a vestir a roupa impermeável para a noite que prometia ser fria e molhada,
e com umas calças de 7€ mais um blusão de 8€ combinado com o arnez que tinha feito mais o meu colete de 50N e um gorro com um lenço dava o toque final ao equipamento...
De seguida aparece o Jordi com um belo blusão para velejar em condições extremas, com umas calças quase até ao pescoço, o colete de CO2 que era também arnez.. O Vicente idem idem aspas aspas...

...e ali estava eu com o meu equipamento que parecia uma anedota, sem saber o que estava para vir... 
De repente apercebo-me que o meu colete não suportava o meu peso com roupa molhada se eu cai-se à agua, pois foi desenvolvido como auxiliar de flutuação para crianças...
Mas pensei, não vou cair porque tenho o arnez... mas o arnez tinha sido feito por mim, e não tinha sido testado. Simplesmente esta realidade influenciou... e de que maneira!?! o meu estado de espírito... 

O Vicente apanhou esse momento (nesta foto) em que estou a pensar nisto tudo...






Nunca nos vale de nada rendermos-nos às desvantagens,
já o meu Pai dizia: - nas cartas não ganha quem tem muitos trunfos... ganha quem joga melhor!

Desta vez não havia nada para ganhar, mas podia haver muito para perder se caísse à agua...
Então era a altura de criar uma estratégia para o "meu jogo",
Liguei o telemóvel e tinha um "pauzinho ou dois de rede" mesmo a 10 milhas náuticas de terra.
FIXOLAS... eheheh e o telemóvel estava de bateria cheia e com bastante dinheiro no cartão...

A aplicação do NDrive que tenho no telemóvel funcionava lindamente mesmo sem estradas por perto... o NDrive permite enviar uma ou mais mensagens com as coordenadas exactas do sitio onde estou para outros telemóveis... Coloquei o telemóvel na bolsa estanque que permitia ter acesso ao teclado do ecrã através da bolsa, e uma lanterna à prova de agua era colocada na testa...
O colete daria sustentação suficiente se despisse as calças...  e pronto!!

Em caso de um grande azar bastava enviar um SMS ao membro da Equipa de Terra...
à Sofia, a "minha Maria"... e se eu lhe pedisse socorro, na agua ela não me deixava de certeza... 
se fosse necessário, ela até drenava a agua do Atlântico. 

Foto de Edgar Couceiro.



É claro que tínhamos todos os meios recomendados e obrigatórios a bordo...
O Jordi tinha planeado exaustivamente todas as questões da segurança, 
e até alugou dois telefones satélite à prova de agua.

Sem esquecer-mos também que o Vicente é uma pessoa muito experiente e com treino...

- mas eu sou um "bicho do mato" que por vezes ajo como se estivesse sozinho, depositando todas as esperanças no que eu poder fazer...
Eu sou assim!! e há coisas difíceis de mudar!!




Vagas de Noroeste com 2 metros espaçadas uns 12 segundos...
Perfeito e bora lá ver como é isso de velejar à noite.

O Vicente era o nosso navegador,
e ele sempre que tinha oportunidade explicava-me como se escolhia os rumos.
Dum dia para o outro e sem me aperceber, troco os kms por milhas, o norte e o sul pelos graus, os km/h pelos nós... etc etc, e agora toda essa linguagem era natural e fazia-me todo o sentido.

Pela primeira vez na vida, dava uma verdadeira utilidade a uma bússola.
Juntava os graus que via na bússola aos solavancos, abanões e sons da agua nos cascos...
e talvez, (e digo talvez) tal como um cego com a sua bengala caminha pelas ruas, eu fazia leme a surfar nas vagas sem ver patavina de nada de nada...





...o TIKI transpirava felicidade,
...e perguntam alguns de vocês, - como é possível um barco estar feliz ??
Mas acreditem que ele tem a sua alma, tem a sua personalidade, tem a sua vida...
e se tem isso tudo e muito mais, tem que ter os seus momentos de felicidade à sua maneira !

Eu quero acreditar (e acredito) que é assim...

Apenas tínhamos a genoa em cima e ele deslizava entre os 4,5 a 5,5 nós.
Eu fazia leme sem noção do tempo e recusava-me a sentir-me cansado, para que não me retirassem o leme das mãos... Gostava de ter visto a minha figura nessa noite...  Devia ser algo do tipo:
- um gajo com umas olheiras do caraças mas como os olhos a brilhar...
- com uma expressão de esforço mas sempre a sorrir
e tudo isto bem regado com agua salgada.

O dia aparece bem nublado e já víamos bem o Cabo de São Vicente





De Sines para Sagres, começamos com vento de popa, passando para largo e terminando à bolina.
Uma coisa que nunca tinha visto, era ondas numa direcção e o vento na direcção oposta...
porque a minha pouca experiência vem das aguas abrigadas e do tenebroso Mar da Palha.

Fizemos turnos durante a noite,
ou seja, fizeram turnos porque o meu cérebro estava "ao rubro" e recusava-se a dormir,
simplesmente estava praticamente acordado à 24 horas, e agora o cansaço físico sentia-se na pele.

O Jordi tinha-se rendido ao cansaço, o Vicente estava fresquinho que nem uma "alface" e apercebe-se do meu cansaço, e sugere que vá descansar...  e eu disse-lhe:
- Nunca aqui estive, nunca vi nada disto.
  Daqui não saio, daqui ninguém me tira... eheheheh
e estas palavras trouxeram-me de novo "à vida", fiquei desperto e com os reflexos "no ponto"...





O Vicente verifica a nossa posição e apercebe-se que estamos a andar a uns 2 nós,
e diz-me que assim não vamos a lado nenhum, e estamos a enfrentar uma corrente marítima e o vento tinha rodado para sul...
Trocamos a vela pelo motor e damos-lhe força... mas pouco ou nada se ganha.
Começamos a fazer contas, e a manter este andamento, precisávamos de umas 3 horas ou mais para dobrar a Ponta de Sagres.
Continuamos a fazer contas e chegamos à conclusão que só tínhamos gasolina para uma horita...





O Vicente diz-me... temos que alterar o rumo, temos que passar o mais perto possível do cabo, para ficar-mos à ravessa do vento e porque talvez o mar seja mais calmo nessa zona...
Eu fico pensativo e ele volta a dizer: - temos que arriscar!!
Eu respondo-lhe com perguntas: - e se o motor pára? - e como fazemos rumo para terra se vamos levar com as ondas pelo costado (de lado)??

O Vicente responde prontamente: - não te preocupes! se o motor parar saímos facilmente à vela!

Eu pensei nas suas palavras, no seu à-vontade, e vejo que não vamos arriscar nada. Ou na pior das hipóteses é apenas um risco calculado.

Ele pede para caçar a vela grande ao máximo e para virar o leme 90º
perguntei-lhe pela ultima vez: - tens a certeza? 
e quando ele disse que sim a sorrir, verifiquei visualmente as amarrações dos arneses de segurança e agarrei-me com unhas e dentes ao Tiki, e viro o leme...

Eu pensava que: surfar nestas paredes agua é uma coisa, recebe-las de lado era outra...





...mas não seria bem assim,
estávamos com o vento ao largo e com a vela ajustada para uma bolina serrada...
e a vela deu uma estabilidade incrível no Tiki, era um amortecedor gigante...
A vela obrigava o Tiki a enterrar na agua o casco que recebia  a onda e adornavamos muito pouco...

...e claro que resultou.
(Vicente no Cabo de São Vicente)




E uma hora depois (mais coisa menos coisa) viramos a ponta de Sagres...

Sem gasolina... sem forças para muito mais (falo por mim),
decidimos fundear no porto da Baleeira.

Eu fiquei a comandar o guincho da âncora,
e depois de a operação estar concluída deitei-me no estrado da proa...
Queria só fechar os olhos um bocadinho, descontrair um pouco deitado e de olhos fechados...
telefonei à minha "Maria" dizendo que estava no Algarve, fundeado e a descansar porque tínhamos velejado toda a tarde e noite... e bla bla bla ondas do caraças e bla bla bla....
Ela apercebe-se do meu cansaço pela minha voz... e interrompe-me:
- Mas o que é que se passa aí ?!
mas esses gajos são malucos ou quê!?
tu não estás nada bem!! vê-se na tua voz!! 
Diz-me onde estão, onde é essa m3rd@ da Baldeira ou raio que os partam, 
que eu vou já aí buscar-te!!

Eu ri-me... tive que tranquilizá-la e minutos depois tudo ficou calmo!
...e desliguei o telemóvel de sorriso nos lábios e deixei-me dormir com o oleado vestido.

Acordei 2 horas depois todo azamboado, confuso e baralhado...
Tinha-me deixado dormir com a roupa toda cheia de marcas de sal... aquelas marcas brancas que a agua salgada deixa! e acordei todo lavadinho sem essas marcas...
Pelos vistos o cansaço era tanto que choveu e nem dei por nada... eheheheh...







A meio da manhã levantamos ferro...
e lá vai o TIKI com vento fraco e mar chão...

(CONTINUA...)



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